Wednesday, March 19, 2014

Resposta 12. 1946


It’s been 7 years since you left. So much has happened. So much has changed. It’s been several years of war. 7 years of pain. And you left. Sometimes I feel angry about it. You had the chance of leaving and not going through what we went through. You were protected, and I am so happy for it. But it is not always easy to understand. And I know is not easy leaving. But it wasn’t easy staying either. 7 years, Kathe! I’m a different person. The war changes you in a way that I never thought it could be possible. It changed my notions of home, of love and of life. It destroys so much of what you were before. All of those dreams, all of those plans. Everything then seems so volatile. And you left. And I stayed.  We went through so much. Bombings, family members and friends dying, people running. I never knew what happened to you. I tried. I’ve sent letters. And I still send them. And I never heard from you. Maybe the new life made you well. Maybe you realised that you had nothing to do with this land anymore. And for those staying remain the thought of what could have been. 



Now the bombings are over. People are returning. But you have not returned. And whilst the fighting has stopped, maybe it will take much longer until the war is actually over.  For me.

Photos by ©Andreas Chasomeris
Text by Gustavo de Carvalho 

Friday, March 14, 2014

Resposta 11. Käethe & Bernd

               Envolta pela bruma que distorcia imagens a se formarem diante dela, a jovem Käethe viu-se na plataforma de uma estação de trens. Seu coração acelerado sabia que ali, naquele exato momento, Bernd chegaria para por um fim a tão longa espera. De onde vinha? Que cidade era aquela? Para onde iriam? Ora, mas que importância tinha isto? Afinal, o seu Bernd vinha ao seu encontro.
               De súbito, o apito e o ranger das rodas freando nos trilhos. Agora, a plataforma repleta de pessoas. Gente que, como ela, tinha ido buscar gente que chegava. Lágrimas, sorrisos e abraços. Käethe procurava Bernd por entre rostos que surgiam e desapareciam, como se fossem flashs sucessivos e velozes de irreal galeria.
Mas eis que ele surge a seu lado, como que saído do nada, talvez da névoa... Olharam-se demoradamente, com a certeza daqueles que se amam. E lágrimas molharam seus sorrisos. Mas nada disseram. Apenas se jogaram nos braços um do outro, sem saber do tempo ou do lugar.
               E ganharam a rua, as praças, os parques... E dançaram ao som da música imaginária, até que se vissem girando numa roda-gigante que os transportou ao topo e de lá ficaram a apreciar estrelas. Nada, absolutamente nada poderia perturbar tamanha plenitude. Sem palavras, sem perguntas ou respostas. Nenhum constrangimento no silêncio que a tudo explicava sem pedir explicações. Silêncio que ampliava o sentir daquele momento único porque mágico e perfeito.
               O mesmo efeito mágico foi alcança-los a beira de uma praia de águas mansas e cristalinas, onde galhos de amendoeiras e palmeiras balançavam ao sabor da brisa soprada ao entardecer. Ali os dois brincaram na areia e se jogaram no mar, como se ainda fossem crianças travessas, reconciliando seus corpos com a paz da natureza.
               E caminharam... Caminharam em dimensão e tempo que jamais se exaurem, como se fora a trilha de uma vida inteira. Assim, passo após passo, viveram tudo o que a vida porventura lhes tivesse oferecido para ser vivido. E se sentiram inteiros.
               Aplacadas as ausências prévias, os profundos olhos azuis de Kaëthe procuraram os de seu amado e os dois se perceberam mais maduros, como que grisalhos, a flutuar numa bolha com o espectro do arco-iris. Onde estavam, nenhuma chuva, granizo ou neve; nenhuma seca ou enchente os poderia afetar. Nem calor, nem frio. Nem fome, nem dor. O desconforto não existia e tudo estava explícito: nunca mais ficariam separados. Agora exaustos de tantas procuras, se aconchegaram na tranquilidade da vida que enfim pulsava dentro deles.
               Depois, embriagados de paixão, adormeceram juntos por toda a eternidade.


Por Angela Lucena 

Wednesday, February 26, 2014

Resposta 10. A vida alheia de Bernd Biermann em Nova York

Climbing into the Promised Land - arrival at Ellis Island, New York, USA
(by unknown artist)




Photography of Bernd Biermann´s co-refugee Hermann Landshoff:
Firehouse near Brooklyn Bridge, New York (1940)


View of Bernd Biermann´s house - New York, 1939


Bernd Biermann´s dormitory / 1938 - New York - USA


Bernd Biermann´s dormitory detail


Bernd Biermann´s bookshelf in New York, 1939




Painting from Gabriele Münter (member of the "Der Blaue Reiter" = The Blue Rider" - German Artists Movement of the 1920s)



- on Bernd Biermann´s wall in New York, 1939



Por: Wolf Kronner

Saturday, February 15, 2014

Resposta 8. Chocolate Reconforta!


Carta de Waldete Fonseca recebida por correio em 09/fevereiro/2014.
Foto por Paula Ellinger  

Antes do navio zarpar, antes do buquê entregar, Bernd Biermann precisou respirar fundo: o ar, o cheio do mar, a saudade no ar, a luz do olhar azul - da cor do céu.
Kathe guardou tudo em seu coração. Com as flores que compunham o buquê ela chegou no Brasil.
As flores foram guardadas por um longo tempo, elas eram plenas de significado, de sentimentos. Aliás, as flores guardavam as palavras da carta que sabe Deus onde foi parar.
Ah! A carta onde foi parar? Posta restante, diziam, por aqui não há.
Vida que segue... Kathe aqui e Bernd na Itália.
Lembro de ouvi-la contar (em uma das nossas longas conversas) que ganhou da neta Carol, uma caixa de chocolates fabricado por Biermann, provavelmente filhos ou netos do Bernd.
Imagino Berns, presenteando Kathe, pedindo licença para pegar emprestado do poeta Fernando Pessoa, e diz:
"Come chocolates, pequena:
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mndo senão chocolates.
... pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida." 

Teresópolis, fevereiro/2014
Waldete Maria Barbosa da Fonseca

Tuesday, February 11, 2014

Resposta 7. Reencontro


Reencontro

“Os dias se passaram...”... Sem que eu tivesse notícias de Bernd... Não dias, mas uma eternidade dentro de uma menina que valsava dentro de mim com brilho nos olhos, aflita e ao mesmo tempo esperançosa com que estava porvir. O que eu desejava naquele momento era que o novo pudesse trazer o singelo que havia existido em algum lugar longe de onde eu estava.

Em meio à ressaca das esperas intermináveis, do ponteiro indiferente do relógio, de um sopro que emanava uma alma cansada, de uma vida que eu precisava empurrar para não ser empurrada por ela... A vida seguia seu fluxo.

Em uma tarde de chuva, li com lágrimas nos olhos o trecho de um poema que encontrara ao abrir um livro com as páginas marcadas pelo tempo, em letras miúdas, que dizia: “A arte de perder não é nenhum mistério, tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério (...) é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério, por muito que pareça muito sério.”

“Valsando como bailarina...”  

Aquele trecho ficara marcado em minha memória durante muito tempo... E durante muito tempo eu valsei... Valsei com o tempo como se fôssemos apenas nós dois, valsei com as lembranças que ficaram em outro país, com as flores que me foram entregues naquele navio, com um amor guardado em caixa de lembrança e fitas de cetim sem esperar as lacunas deixadas com as incongruências do tempo. Valsei como uma criança que olha o mundo pela primeira vez com poesia, em busca da delicadeza de cada manhã, ao abrir a janela era por ele que esperava, era o sorriso dele que me fazia levantar e seguir os dias...

“Acreditando em milagres...”

Bernd às vezes me dizia que: “A arte de viver é a arte de acreditar em milagres”, referindo-se a Cesare Pavese, um escritor e poeta italiano.  E segui meus dias acreditando neles, mesmo em meio às incertezas de possibilidades, de uma vida e um destino do qual não havia escolhido, de um livro cuja história ficara em aberto.
 Talvez acreditar em milagres não me tornasse outra pessoa, mas minhas esperas eram menos solitárias, pois ganhava do tempo o direito de sonhar.

O mar onde tudo recomeça...

 Nosso milagre aconteceu no mar, em um dia azul de primavera, azul que contrastava com o brilho de nossos olhos ao nos reencontrarmos. O mesmo que havia nos separado durante dois anos agora nos unia com a força das ondas, com os pingos de água salgada que me faziam fechar os olhos e querer girar, fechar os olhos e querer valsar para sempre entregue em seus braços. Ali nos encontramos, nos abraçamos e valsamos...

Dedico à Käthe B. Ellinger e Bernd Biermann, que em algum lugar, mesmo que distantes, se encontraram... E a todas as possibilidades de encontro e desencontro das quais vivemos em dias de guerra ou de paz.

“A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
 Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
 Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
 Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
 Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
 — Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.”

One Art, Bishop, Elizabeth. O iceberg imaginário e outros poemas.


Por Larissa Lopes


Sunday, February 2, 2014

Resposta 6. As Probabilidades do Destino



Quando o nazismo chegou ao poder, eram 561 mil os judeus na Alemanha, sendo 178 mil só em Berlim. Em janeiro de 1938, pelo menos 203 mil haviam emigrado e 329 mil continuavam no país. Kathe era uma das emigrantes. Bernd um dos que ficaram. 

Dentre os judeus que estavam na Alemanha em 1938, cerca de 149 mil[i] se refugiaram em outros países, pelo menos 119 mil[ii] foram deportados - dos quais 45 mil provieram de Berlim - e 34 mil morreram por razões excepcionais (óbitos em excesso) [iii]. Alguns, ainda, resistiram a esses destinos e terminaram a guerra vivos em Berlim. Foram 6.252, ou 4% da população original de judeus da cidade. Bernd pode ter sido um desses 4%. Pode também ter sido deportado, como 36% dos que estavam nas mesmas condições que ele, ou morrido pelas condições excepcionais de vida, como 10% . Mas o mais provável, com 45% de chance, é que tenha se refugiado em outro país.

Se emigrou, Bernd provavelmente foi para Europa. 43% dos judeus refugiados da Alemanha pós-1938 ficaram no continente. O principal destino era Polônia – 32% dos judeus que emigraram dentro da Europa escolheram, por azar, o vizinho frio. Mas Bernd pode ter tido mais sorte e, se ficou na Europa, há 21% de chance de que tenha ido para Inglaterra, 12% de que tenha terminado na França e apenas 5% de que tenha ido para Itália, como imaginou minha avó. Considerando todas as possibilidades de destino, desde que Bernd tenha sido deportado até que tenha se escondido em Berlim ou emigrado, a chance de ter feito o caminho para Itália é de 0,97%. Mais provável é que tenha ido para a América Norte, como fizeram 20% dos emigrantes, ou para perto de Kathe, na América do Sul, onde chegaram 15% dos judeus saídos da Alemanha depois de 1938. As chances, dentre todos os destinos possíveis, de que Bernd tenha efetivamente saído da Alemanha e rumado a terras sul-americanas é de 7%. Mas pode ser também, com 1% de chance, que tenha se refugiado na Austrália ou na África, ou, sob 3% de chance, que haja emigrado para Palestina.

Denter todos esse números,  existe 3% de destinos que se escondem, se desconhecem, que entre uma fonte e outra de dados se perderam ou não foram mapeados. E é justamente este, o destino desconhecido, o que  Bernd tomou.

*Baseado em  números publicados em http://ww2stats.com/pop_ger_jew_emi.html



[i] Entre 1938 e 1942
[ii] Entre out de 1941 e março de 1943
[iii] Excess death rate